Autor. Raul Brandão
O primeiro livro de Raul Brandão, Impressões e Paisagens foi o seu início literário.
Tudo neste livro é sensorial e sensual, do calor que exala da terra, aos frutos que pendem das árvores, do mar bravio ao aroma de maresia e do peixe fresco.
Aqui a paisagem confunde-se com o estado de alma e o que os olhos vêem é o que a alma sente, como um verdadeiro nortenho sabe sentir.
Poder-se-ia dizer que é um livro de viagens que condensa nas suas páginas as impressões de cada lugar por onde passou.
Raul Brandão observa o seu país como quem o sonha, com espanto, melancolia, com amor. Nada lhe escapa a ternura das gentes, o silêncio das ruínas, o rumor do mar.
Não há melhor viagem por Portugal do que esta de mão dada com Raul Brandão
"Espero pelo dia - mesmo na cova o espero - em que acabe a exploração do homem pelo homem".
Raul Brandão tinha apenas um grande "sonho" e descreveu-o assim nas suas Memórias, o terceiro volume onde faz o Balanço à vida.
Pede também mais justiça, mais pão e mais reflexão.
150 anos após o seu nascimento, o seu sonho, o seu desejo, continua tão actual como nos séculos passados.
O escritor "assombrado pela ideia da morte" tinha na justiça o seu
sonho, fruto da observação da vida dos pobres, espelhando-o em toda a
sua obra, tendo-se tornando num grande intérprete da vida íntima e da
trágica condição portuguesa: "A vida antiga tinha raízes, talvez a vida
futura as venha a ter.
A nossa época é horrível porque já não cremos - e não cremos ainda.
O passado desapareceu, de futuro nem alicerces existem.
E aqui estamos nós sem tecto, entre ruínas à espera".
Uma escrita permanentemente angustiada que pôs em causa as concepções literárias vigentes na altura.
Foi influenciado pelas correntes do Realismo, do Naturalismo, do
Simbolismo e do Decadentismo, e por isso mesmo sua obra é considerada
excêntrica, onírica, idealista, lírica e influenciou autores tão
diversos como Vergílio Ferreira, José Saramago, Maria Gabriela Llansol,
José Luís Peixoto ou Rui Nunes.
150 anos depois do seu nascimento, foi lançada a colecção Raul Brandão 150 Anos.
Ao todo são oito títulos essenciais para compreender o trabalho do autor
que são recuperados nas suas edições originais fac-similadas.
Impressões e Paisagens, de 1890, foi a estreia do autor na escrita literária.
Os críticos denegriam esta colectânea de contos como naturalistas.
Sendo uma obra seminal, está ainda longe de espelhar todo o talento do
autor mas deixa antever alguns dos temas que viria a abordar e,
sobretudo, a forma como conjugou elementos naturalistas, simbolistas e
impressionistas.
Raul Brandão dedicou toda a sua vida à escrita e deixou uma obra única no contexto da literatura nacional.
É considerado um dos maiores escritores portugueses, embora pouco lido,
tendo ficado ensombrado pela presença de Fernando Pessoa no panorama
literário da época.
Uma obra de singular liberdade criativa, para ler e descobrir.