Autor. Rui Rodrigues
Publicação: Amadora : Editora Erasmos
Ano -, 1997
Descrição: 253 p. ;
24 cmISBN: 972-8301-03-0.
"A
guerra é uma coisa horrorosa, é uma bestialidade: as pessoas matam-se
umas às outras. Mas, por vezes, faz-se. E a verdade é que há diferentes
maneiras de a fazer. Pode-se fazer achando que, apesar de tudo, os
combatentes inimigos são criaturas de Deus, como nós, ou podemos
olhá-las como meros indivíduos a abater, como se fossem animais." (declarações de José Pedro Simões Caçorino Dias, Coronel, p. 111)
"Para
mim e para muitos camaradas meus, o mais revoltante foi o que se passou
depois da independência da Guiné-Bissau. O mais revoltante era dizerem
que éramos portugueses, quando afinal não éramos portugueses. Nós
pensávamos que ficávamos portugueses, que pertencíamos à geração dos que
pertencem a Portugal. Mas chegámos à conclusão de que não era assim.
Não se podia imaginar que a tropa portuguesa ia mandar para a Guiné a
lista dos que, lá, tinham pertencido à tropa portuguesa. Não sabemos
quem é que mandou essa lista, mas sabemos que a mandaram, no tempo de
Luís Cabral. Eu estive preso cinco vezes, e na prisão
mostravam essa lista, com o carimbo do quartel-general daqui e tudo, e
com os nomes dos que tinham condecorações e louvores.
(...) Não
culpamos o governador Bettencourt Rodrigues, que, esse, foi preso
depois do 25 de Abril. Culpamos, sobretudo, o governador português e
também o último governador que esteve lá, Carlos Fabião. Foi ele que nos
disse que tinha recebido uma carta de Portugal, do general Spínola,
para nós deixarmos a tropa. Precisamente no dia 19 de Agosto de 1974.
Mostrou a carta, mas ninguém leu.
(...) No
mês de Março de 1975 começaram as prisões. Foi um mês negro para os
comandos. Eu fui preso. E fui torturado. Como muitos outros camaradas.
Tenho testemunhas, e alguns estão cá em Portugal. Obrigaram-nos a
carregar pneus gigantescos, pneus de Berliet, com jantes e tudo. Era uma
das torturas, mas havia outras: como pendurar uma pessoa pelos pés, com
cordas e dar-lhe chicotadas. Dentro da prisão obrigavam as
pessoas a andar despidas, só com as cuecas. Em Bula obrigaram muitos
camaradas a andar com pneus de Berliet à cabeça, na rua. O comandante do
PAIGC, na altura em que faziam isso, chamava-se Benjamim Correia. Mas o
homem da segurança, o carrasco de todos esses camaradas, foi Fernando
Quadé.
(...) Houve
camaradas que estiveram presos seis, sete ou oito anos. Alguns já
tinham sido fuzilados, e os familiares continuavam a levar-lhes comida e
cigarros. Às vezes, os guardas pediam cigarros, dos bons, para os
presos: as famílias estranhavam, diziam que eles não fumavam. Diziam que
tinham passado a fumar. Já estavam mortos. Outros ficaram
aleijados para sempre, por causa dos maus tratos. Uma vez fui passar
férias à Guiné, e encontrei um soldado da minha companhia, que tinha
sido muito valente, chamado Mumó Sissé. Quando me viu começou a chorar.
Contou-me que passou seis meses numa cela onde não se podia pôr de pé
nem estender as pernas. Quando de lá saíu tinha uma perna e uma mão
paralíticas. E por lá anda.
(...) Houve
camaradas que foram presos no Senegal, na Gâmbia, e na Guiné-Conacry.
Foram mandados para a Guiné como se fossem peixe, para serem fuzilados. Tudo
se passou no tempo de Luís Cabral. Podem dizer o que quiserem de Nino
Vieira, mas todas essas perseguições acabaram depois do golpe de Estado
de 14 de Novembro de 1980." [meu negrito] (declarações de João Seco Mamadu Mané, Fuzileiro Comando, pp. 166-168)
"Não
posso nem quero deixar de dizer uma palavra sobre o que foi, depois, o
destino desses homens do Batalhão de Comandos Africanos. Em 1974 estive
em Londres, com o Dr. Mário Soares, o Dr. Almeida Santos e com o Prof.
Jorge Campinos, já falecido, a negociar com o PAIGC, representado por
Pedro Pires (...) As indicações que levava do general Spínola
eram muito claras e eram as mesmas que tinha recebido, na Guiné, o major
Carlos Fabião: aceitação pelo PAIGC de que ninguém tocava nos
africanos, não só nos oficiais e sargentos do Batalhão de Comandos, como
nos comandantes das milícias, que tinham cerca de 20 000 homens, com
insígnias e uniformes próprios, e que tinham sido comandados pelo major
Fabião. Nas nossas conversas com o PAIGC ficou sempre assente
que haveria uma integração desses pessoal: não iam, com certeza,
continuar a ser oficiais e sargentos, isso percebia-se, mas seriam
reabsorvidos como civis. Não foi isso que o PAIGC fez. O PAIGC
fuzilou barbaramente a maioria dos meus oficiais do Batalhão de Comandos
Africanos. Creio que o primeiro a ser fuzilado foi o capitão Jamanca (...) Os
meus oficiais foram assassinados pelo PAIGC, com conhecimento de Luís
Cabral e de Nino Vieira. Não o posso provar, mas não tenho dúvidas
nenhumas, pois tenho relatos de familiares, nomeadamente da mulher do
tenente Zacarias Saiegh. Os meus sargentos foram também quase todos
fuzilados; só nos soldados é que eles não tocaram.
(...) Disse-se
que daqui, de Lisboa, foi mandada para a Guiné uma lista dos comandos
africanos, com postos, condecorações, louvores e tudo.(...) Num
programa de televisão, em 1994, Luís Cabral foi fortemente pressionado
pelo comandante Alpoim Calvão - e viu-se que ele ficou aflito. Como é
que ele podia não saber? Então ele era presidente e não sabia?"(declarações de João Almeida Bruno, General de Quatro Estrelas, pp. 76-78)
"No
princípio, os jovens eram apanhados como pássaros para irem para a
tropa, às vezes eram amarrados para não fugirem e depois eles punham nos
papéis que eram voluntários. Nos últimos anos da guerra os guineenses
já iam para a tropa voluntariamente, porque o PAIGC matava mulheres e
crianças nos povoados que não estavam com eles." (declarações de Marcelino da Mata, Tenente Coronel Graduado Comando, p. 183)